A neblina na estrada do futuro

Como dirigir na neblina?

Lembro de uma vez, quando tinha uns 12 anos, que visitei a casa de um parente distante. No porão da casa dele, havia sua biblioteca particular: meia dúzia de estantes de livros diversos, além de diversas caixas espalhadas pelo chão, cheias de livros. Fiquei a tarde toda maravilhado, olhando para as capas e folheando aleatoriamente páginas velhas cheias de letras e poeira. Particularmente, achei fascinante uma apostila de cursinho, que condensava matérias como Matemática, Química, História e outros temas de vestibular.

É da mesma época o joguinho Enduro, de Atari. Um carro de corrida que deve ultrapassar outros carros. Na fase normal, é mais simples, dá para ver os demais carros à distância. Contudo, há uma fase em que surge uma neblina espessa, e só dá para ver os outros carros a uma curtíssima distância.

Naquela época, eu não tinha a menor ideia do que seria no futuro, dos caminhos possíveis a trilhar. É como uma espessa neblina à frente, só dá para ver alguns poucos passos possíveis e ter uma leve ideia do objetivo final. O que já sabia era que eu que gostava enormemente de estudar, de livros e conhecimento. E de temas pragmáticos, que tinham aplicação concreta na vida real.

A neblina da guerra

O teórico de guerra John Von Clausewitz cunhou o termo “neblina de guerra”, referente à informação incompleta nas decisões dos exércitos. Decisões essas que podem mudar o destino inteiro de uma nação e da história.

Dois exemplos históricos.

1 — O novíssimo e poderoso navio de guerra britânico “Prince of Wales” foi enviado ao Oceano Pacífico, alguns dias após o Japão bombardear Pearl Harbour, em 1941. O Prince of Wales foi detectado por uma escolta japonesa, e decidiu retornar ao porto de origem, por segurança. Naquela época, não tinha GPS ou satélites, então encontrar um navio no oceano era um jogo de busca exaustiva, gato e rato.

No caminho, o navio recebeu um relato de atividade dos japoneses, em terra, e não resistiu à tentação de se deslocar ao local para usar todo o poder de seus canhões no inimigo. Horas de deslocamento depois, o Prince of Wales chegou ao destino, para só então descobrir que o relatório estava errado: não tinha atividade japonesa nenhuma.

Nesse meio tempo, o navio foi avistado pelos aviões japoneses. Horas depois, uma frota de mais de 80 aviões torpedeou e afundou o Prince of Wales, que mal conseguiu revidar. Os britânicos cometeram uma série de erros, como superestimar o poderio naval e subestimar o estrago que aviões podem causar, mas não tivessem ido atrás de um relatório errado, o destino poderia ser outro.

Foi um desastre que virtualmente eliminou a oposição britânica no Pacífico.

Uma lição é separar o sinal do ruído — e isso não é fácil.

https://www.warhistoryonline.com/instant-articles/end-battleship-hms-prince-wales-repulse-sunk-10th-december-1941.html

2 — Previsão do tempo no dia D.

O desembarque na Normandia pelos aliados, em 1944, foi a maior operação anfíbia da história, com mais de 2000 navios de guerra, 150 mil soldados. Entretanto, tudo poderia mudar, por um motivo simples e difícil de prever: o clima.

Era necessário que houvesse lua, no mínimo parcialmente, porque as operações aéreas começariam de madrugada. A maré deveria estar baixa — para permitir que as tropas localizassem o campo minado deixado pelo inimigo. O tempo deveria estar bom — pouco vento, poucas nuvens.

Um desembarque em condições climáticas ruins custaria caro: imagine o pesadelo que seria desembarcar sob tempestade e sob fogo nazista.

Para piorar, o tempo literalmente fechou, dias antes da operação. A responsabilidade caiu nos ombros do meteorologista chefe dos americanos, o Capitão James Stagg. Ele previu que o clima ia dar uma pausa, e a operação seria possível na data. Felizmente para os aliados, ele acertou.

Além da técnica, também existe a sorte: a virtú e a fortuna de Maquiavel.

O contexto da neblina de Clausewitz é militar, mas a ideia é análoga, para a neblina na estrada do futuro.

Não temos como enxergar muito longe, nesse panorama nebuloso. Temos que ter fé de que estamos ligando pontos corretamente.

https://ideiasesquecidas.com/2017/11/26/a-previsao-do-tempo-que-salvou-o-dia-d/

Conectar os pontos

Por fim, vale a pena ver a terceira história de Steve Jobs, no discurso de formatura de Stanford. Ele fala sobre conectar os pontos.

“É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.”

“De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa — sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.”

Veja também:

https://ideiasesquecidas.com/2018/12/23/conectar-os-pontos/

https://ideiasesquecidas.com/2022/07/17/winston-churchill-o-homem-que-mudou-o-mundo/

Originally published at https://ideiasesquecidas.com on July 30, 2022.

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Project Manager on Analytics and Innovation. “Samurai of Analytics”. Passionate about Combinatorial Optimization, Philosophy and Quantum Computing.

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Arnaldo Gunzi

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